Páginas

sábado, 18 de julho de 2009

COMENTARIO BILBICO - I JOÃO

COMENTARIO BILBICO DE I JOÃO

INTRODUÇÃO

As epístolas que trazem o nome de João são anônimas. A primeira não tem dedicatória nem assinatura. Há, porém, afinidades tão íntimas entre ela e o quarto Evangelho, no tocante ao estilo e à matéria versada, que a maioria dos eruditos concorda que os quatro escritos tiveram um só autor. Até mesmo os poucos que pensam diferentemente são constrangidos a admitir que o escritor da primeira epístola deve ter sido alguém que recebeu forte influência do autor do Evangelho. Não há razão para se rejeitar a tradição de ter sido o apóstolo João, filho de Zebedeu, o autor dos quatro documentos.

Existe íntima ligação entre o Evangelho e a primeira epístola; com efeito, a epístola é de fato uma seqüência do Evangelho. Este traz a declaração especifica de ter sido escrito "para que creiais ser Jesus o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20.31). A epístola foi escrita "a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus" (1Jo 5.13). O Evangelho foi escrito para despertar fé para com Jesus Cristo, fé vivificante; a epístola, para justificar a certeza da posse dessa fé, e para instruir nas verdades da mesma.

A epístola foi escrita num tempo em que falsa doutrina, do tipo gnóstico (seita não acreditava na humanidade de Cristo, afirmavam ser Ele um fantasma), havia surgido e até levado alguns a se afastar da igreja (1Jo 2.19).

O gnosticismo assumia muitas formas, porém sua idéia fundamental parece que sempre foi a seguinte: a matéria é má, só o espírito é bom, porém pelo saber (gr. gnosis), de uma espécie só conhecida pelos iniciados, o espírito do homem pode libertar-se de sua prisão material e erguer-se para Deus. Onde tal sistema se associou ou se uniu ao Cristianismo, seguiram-se resultados sérios.

Em primeiro lugar, negava a possibilidade de uma real encarnação, porque, sendo Deus bom, não Lhe era possível que viesse a entrar em contacto com a matéria má; e isto, por sua vez, afastava a possibilidade da expiação, porque o Filho de Deus não podia ter sofrido na cruz. Outrossim, se a salvação vinha pelo saber, podia-se sustentar que era de todo sem valor uma vida correta, e as piores formas de gnosticismo acobertavam, com a capa do saber, nojentas licenciosidades. Esta epístola tem por finalidade, expressamente declarada, expor e refutar essas idéias errôneas. "João apresenta nesta epístola três sinais de um verdadeiro conhecimento a respeito de Deus e de comunhão com Ele, sem o que era falsa toda pretensão de se possuírem estes altos privilégios. Os três sinais são, primeiro, justiça de vida; segundo, amor fraternal; e terceiro, fé em Jesus como Deus encarnado". Esses três temas surgem continuamente, aqui e ali, através da carta.

Esta epístola é orientada por dois grandes pensamentos acerca de Deus- Deus é luz (I Jo 1.5) e Deus é amor (I Jo 4.8-16). Deus é o sol do firmamento espiritual, a fonte de luz para o espírito, e de calor para o coração dos Seus filhos. Daí procede a responsabilidade que os filhos tem de viver de acordo com os elevadíssimos padrões morais e, como já notamos, isto é, enfatizado repetidamente (ver I Jo 2.1-6; I Jo 3.3,6,9; I Jo 5.1-3). Entanto, não encontramos aí nada parecido com admoestação ríspida; pelo contrário. O escritor dirige-se aos leitores com conhecimento íntimo deles, com solicitude paternal e interesse afetuoso-"Filhinhos", "Amados", "Filhinhos, ninguém vos engane", "Filhinhos, guardai-vos dos ídolos".

I Jo-1.1

I. PRÓLOGO I Jo 1.1-4

Estes versículos constituem, no grego, uma sentença altamente condensada e complicada, e não se apresenta sem dificuldades. Contudo, o seguinte parece ser o que importa. A mensagem do Evangelho está resumida na frase significativa o Verbo da

vida (1), sendo que o Verbo lembra Aquele que no princípio estava "com Deus" (Jo 1.1), "fez-se carne" e armou a tenda de sua habitação entre os homens (Jo 1.14); e vida lembra-nos que "nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens" (Jo 1.4). Este Evangelho não era nenhuma inovação ou coisa recentemente inventada (era desde o princípio), nem se ocupava de alguma figura mitológica, como as formas vagas dos mistérios gregos, mas de uma Pessoa genuína e histórica, que fora ouvida, vista e até apalpada (1; cfr. Lc 24.39; Jo 20.20-24 e segs.).

A mensagem do Evangelho não é uma teoria ou conto de fadas, mas o registro da vida e da presença entre os homens do Deus vivo, de forma tangível na pessoa de Seu Filho.

No inopinado parêntese com que começa o vers. 2, João apresenta sua justificativa para falar assim de Jesus Cristo, a saber, que ele fala de experiência própria. O que ele referiu (no seu Evangelho) não era "fábula engenhosamente inventada" (II Pe 1.16), nem mesmo uma história ouvida contar de outros, mas um testemunho de primeira mão de benditos privilégios por ele mesmo gozados e por muitos outros que entraram em contacto íntimo com Jesus Cristo durante os dias de Sua vida terrena. Eram notícias boas demais para eles guardarem para si só; precisavam dar testemunho.

A mensagem desse Evangelho fora proclamada aos que recebem agora a epístola, a fim de que possam gozar comunhão com aqueles que a proclamaram. Contudo, a cláusula para que vós igualmente mantenhais comunhão conosco (3) não só significa "a fim de que haja relações amistosas entre nós", mas "a fim de que participeis conosco de nossa relação com o Pai e o Filho". A idéia básica de comunhão (gr koinonia) é ter coisas em comum, é participação, parceria, sociedade, idéia esta muito conhecida no mundo dos negócios (cfr. Lc 5.10). Especificamente a comunhão ou sociedade cristã é uma participação da vida comum em Cristo, mediante o Espírito Santo, e sugere-nos o dom de Deus. É sociedade com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo (3).

No vers. 4 o verbo escrevemos e seu sujeito nos são enfáticos no grego, frisando que a mensagem está redigida numa forma precisa e permanente, tendo sido escrita "por aqueles que tinham plena autoridade para fazê-lo" (Westcott). Na segunda cláusula não se tem certeza se devemos ler vossa alegria, ou "nossa alegria" (ARA), sendo que a evidência manuscrita é ligeiramente favorável a esta última forma (nossa). Leia-se de um ou de outro modo, isso não tem muita importância, como Brooke faz notar, "Na colheita espiritual, semeador e ceifeiro alegram-se juntos". O ponto essencial é que verdadeiro gozo vem somente da comunhão com Deus.

1Jo-1.5

II. AS CONDIÇÕES DA COMUNHÃO COM DEUS 1Jo 1.5-2.6

Havendo esclarecido que o seu propósito em escrever é que seus leitores entrem em sociedade (comunhão), João agora passa a deduzir da natureza de Deus as condições dessa comunhão. Deus é luz, diz ele, e não há nele treva nenhuma (5; cfr. Sl 27.1; Jo 1.4-9). Este simbolismo dirige nossas mentes para o esplendor e a pureza de Deus, e para a iluminação a que nossas vidas se expõem. Nada se pode ocultar dEle (cfr. Sl 90.8), e sendo luz, Ele exige que Seu povo ande na luz (7).

O escritor trata a seguir de três obstáculos à comunhão. Primeiro, é a alegação de estarmos em comunhão com Ele, enquanto andamos em trevas (6). Isto é mentira, porque, Deus sendo luz, não é possível estarmos em comunhão com Ele e ao mesmo tempo estarmos em trevas. Luz e trevas são incompatíveis.

Lembra - nos que o Cristianismo é essencialmente prático. No caso das pessoas descritas por João, a vida desmente as palavras. A frase andarmos na luz (7) provavelmente lembra as palavras de nosso Senhor em Jo 11.9-10. À vista do vers. 5, podemos interpretar a cláusula como ele está na luz como expressiva da perfeição da comunhão do Filho com o Pai. Somente quando vivemos em acordo é que podemos dizer estarmos em comunhão uns com os outros (ver o vers. 3), passando João a frisar que purificação do pecado vem somente do sangue de Jesus Cristo (7). Esta última expressão quer dizer "a vida entregue na morte", e não simplesmente "a vida", como alguns comentadores alegam. Purifica está no presente contínuo e significa "vai purificando".

I Jo-1.8

O segundo ensino falso impugnado é aquele que sustenta que não temos pecado nenhum (8). "Ter pecado" significa mais do que "pecar", e inclui a idéia do "princípio do qual os atos pecaminosos são as várias manifestações" (Brooke). Expressa a idéia de responsabilidade pelos pecados cometidos, a qual aparentemente era negada pelos mestres gnósticos, como fazem hoje em dia aqueles que dizem que o pecado é apenas uma doença, ou fraqueza, devida à hereditariedade, ao ambiente, à necessidade ou a coisas tais, de modo que é o destino do homem e portanto, não falta sua. Tais pessoas só fazem enganar-se a si mesmas. Contrariamente, se confessarmos nossos pecados, recebemos um perdão que procede da natureza de nosso Deus, visto ser Ele fiel e justo

(9).

O terceiro erro consiste em dizer que não temos cometido pecado (10). Com efeito, essa pretensão à impecabilidade faz de Deus um mentiroso porquanto, fora de passagens específicas da Palavra de Deus, todo o modo de o Senhor tratar com o homem implica em este ser pecador que precisa de salvador. Negar isto é rejeitar a palavra de Deus.

I Jo-2.1

Contrariamente a tais ensinos, João apresenta a verdade. Considera o fato de os crentes não serem perfeitos, sem falta; todavia não considera isto como coisa em que se deva ter prazer, porque o seu propósito em escrever é não pecarmos (2.1). No entanto o pecado ocorre, e João passa a falar da provisão divina, que nos concedeu um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo: e Ele é a propiciação pelos nossos pecados (1-2). A palavra traduzida advogado é parácletos, empregada em outra parte do Novo Testamento somente em referência ao Espírito Santo (chamado outro "Paráclito" em Jo 14.16). Sua significação essencial é de "alguém chamado para estar ao lado" de outrem, a fim de lhe prestar assistência. Era usada freqüentemente nos tribunais com relação a advogados de defesa, ou de outros chamados a dar assistência, como por exemplo dar depoimento. A idéia aqui é que Jesus defende pecadores.

Temos duas indicações da maneira como Ele age em nosso favor: a primeira está em Ele ser chamado o justo, o que mostra que nosso livramento não vai de encontro à justiça, senão de acordo com ela. A segunda é ser Ele a propiciação pelos nossos pecados. Esta expressão lembra-nos o processo de fazer expiação, mediante a oferta do sacrifício, no Velho Testamento; lembra-nos também a ira de Deus contra toda espécie de mal, ira que tem de ser levada em conta no processo da salvação.

Por Sua morte na cruz, Cristo fez perfeita expiação, pelo que não precisamos mais temer a ira de Deus. O próprio Filho de Deus, ao mesmo tempo argumento da defesa e Defensor, sacrifício e Sacerdote, deve impor-se nos desígnios de um Deus que é "fiel e justo" (I Jo 1.9), isto é, fiel às Suas promessas e coerente consigo mesmo.

A seguir vem um teste pelo qual os homens podem saber se, a despeito de suas

falhas, estão em relações ajustadas com Deus, andando em comunhão com Ele. O teste consiste em se verificar se guardam os Seus mandamentos ou não, porquanto é impossível conhecer realmente a Deus e tal conhecimento não influir na vida diária. E como Paulo diz: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas" (II Co 5.17).

Tanto isto é inevitável que a pessoa que diz conhecer a Deus, porém não Lhe guarda os mandamentos, é chamada mentirosa (4). Contrariamente, o amor de Deus é aperfeiçoado, isto é, está atingindo seu objetivo e fim, no homem que guarda a Sua palavra (5). Permanece nele (6). Temos aqui uma referência clara ao ensino de nosso Senhor, registrado por João no seu Evangelho (ver Jo 15.4-11). A descrição de vida como um "andar" era expressão favorita de Paulo. O pensamento aqui se liga com I Jo 1.6-7, acima. A vida cristã deve assinalar-se pela comunhão constante com Deus, o que tanto caracterizou a vida de nosso Senhor.

I Jo-2.7

III. AMORES RIVAIS I Jo 2.7-17

O mandamento de que se fala-nos vers. 7 e 8 não está declarado, porém não pode haver dúvida que é o mandamento do amor cristão. Não se trata de uma novidade, mas de um mandamento antigo, que tivestes desde o princípio (7), sendo que princípio aí pode entender-se ou o princípio da fé cristã, ou a dádiva da lei sob Moisés, ou coisa ainda mais antiga.

Não é fácil decidir, mas provavelmente a definição desse antigo mandamento como sendo "a palavra que ouvistes" leva-nos à primeira hipótese acima (cfr. Jo 13.34). Outrossim, se estamos certos em ligar o vers. 6 a Jo 15, isto pode ter levado João a recordar o modo como nosso Senhor repetiu o mandamento naquele discurso (ver Jo 15.12). O mandamento é novo (8) no sentido de que deve continuamente relacionar-se à situação mutável dos seus objetos. O mundo marcha e as circunstâncias mudam, e assim o mandamento é sempre novo. Há sempre uma nova urgência, quanto ao antigo mandamento, relativamente àqueles por quem Cristo morreu.

Este mandamento, como Moffatt traduz, "é realizado nele e também em vós, porque as trevas vão passando e a verdadeira luz já brilha" (8). Cristo mesmo cumpriu o mandamento do amor, e infunde um amor igual em Seus seguidores, de sorte que a atitude de uma pessoa para com o seu irmão mostra se ela está andando na luz ou nas trevas. Se demonstra amor, anda com passo firme, porque o amor livra o seu coração de tudo quanto o levaria a tropeçar. Se demonstra ódio, diga o que disser, está na trilha errada que elevará à ruína, porque o ódio cega os olhos (9-11).

I Jo-2.12

João tem um apelo a fazer, porém antes de fazê-lo reconhece a experiência cristã dos seus leitores. Os vers. 12-14 consistem em duas seqüências, cada qual com um apelo tríplice a filhinhos, a pais e a jovens. Muitos têm revelado ingenuidade na definição destas três classes, e com relação à mudança do tempo do verbo, do presente "escrevo" para o pretérito "escrevi". É verdade que há certa propriedade na menção de qualidades, tais como conhecimento nos pais (os antigos na fé) e força nos jovens; mas, considerando que todas estas qualidades mencionadas são comuns a todos os crentes, é provavelmente melhor considerar a divisão como um recurso de estilo para dar maior ênfase, porque, como diz Dodd, "todos os crentes são (pela graça, não por natureza") filhinhos na inocência e na dependência do Pai celeste, jovens na força, e pais na experiência.

Esclarecendo assim que escreve àqueles cujos pecados são perdoados (12), que conhecem a Deus (13) e têm experiência da vitória sobre o mal (14), João passa a referir o grande amor rival, apelando para que não amemos o mundo (15). Dizendo mundo quer ele significar a sociedade humana separada de Cristo e apostata a Deus, porquanto tem em vista aqueles paixões subalternas, terrenas, que são incompatíveis com o amor do Pai.

A concupiscência da carne (16) representa a satisfação dela em todas as suas formas; a concupiscência dos olhos sugere tudo quanto apela à vista, particularmente talvez não erremos em aplicar o termo a qualquer coisa superficial; a "soberba da vida" representa a vacuidade da auto-glorificação dos mundanos (cfr. os três fatores que levaram Eva a desobedecer a Deus, Gn 3.6). Tais coisas revelam-nos a monstruosidade que resultou de ficar o mundo entregue a si mesmo. É uma aparência passageira, a caminho da ruína. Aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente (17).

I Jo-2.18

IV. O CRISTÃO E O ANTICRISTO I Jo 2.18-28

Filhinhos, já é a última hora (18). É possível que "última hora" signifique o último período antes do fim do mundo, ou a passagem da velha dispensação para o alvorecer da era cristã. Aqui, entretanto, o grego não traz artigo; devemos pois traduzir "uma última hora", com ênfase no caráter geral dos tempos, antes que com relação ao fim deles. A história humana avança por períodos de vagaroso desenvolvimento, até que atinja uma crise, uma era se encerre e comece outra, e os homens digam "não pode jamais acontecer isto outra vez".

João está dizendo que chegou uma última hora assim. Prova-o o aparecimento não de um só, mas de muitos anticristos (18), sendo que o termo pode ser considerado como representando uma índole, um espírito dominante em muitas formas e pessoas. Westcott parece ter razão em pensar que anticristo é alguém que "assalta a Cristo propondo-se fazer ou preservar o que Ele fez, ao passo que O nega".

I Jo-2.19

O vers. 19 é importante para a doutrina da Igreja. É claro que essa gente, aí referida, tinha pertencido à Igreja visível, havia satisfeito os requisites externos de membros; mas, embora saíssem de nosso meio, podia dizer-se que não eram dos nossos. Isto nos adverte que se quisermos ser membros do Corpo de Cristo, é necessário que sejamos mais do que simples membros da Igreja visível; e também que não devemos esperar seja a Igreja visível sempre composta só de verdadeiros crentes. Ela pode até abrigar anticristos no meio dos seus membros professos.

I Jo-2.20

Vós possuís unção (20). Quanto às notas sobre este verso, veja-se o parágrafo seguinte. O erro central dos hereges, como notamos na Introdução, era negarem que Jesus é Cristo (22), isto é, recusarem reconhecer que no homem Jesus de Nazaré vemos o eterno Filho de Deus tomando sobre Si nossa natureza. De acordo com um ponto de vista gnóstico, comum, o Cristo divino veio sobre Jesus, em Seu batismo, e dEle se afastou antes da crucifixão. É uma negação destas, de ser Jesus o Cristo, o que João está combatendo. Considera isto a mentira fundamental, subversiva de toda a verdade. A pessoa que deliberadamente erra aqui, não merece confiança em mais nada.

É tremenda coisa dizer isto, mas significa que é tão forte a prova de que, em Jesus de Nazaré, Deus e o homem estão indissoluvelmente unidos, que não merece a mínima confiança a pessoa que não aceita isto. E culpada de mentira radical, fundamental (cfr. Mc 11.27-33). Demais disto, esta negação do Filho tem conseqüências em relação com o Pai (23), porque se Jesus não é o próprio Filho de Deus, então não é o amor de Deus o que vemos revelado em Sua vida e morte.

Somente em recebê-lO é que nos tornamos filhos de Deus (cfr. Jo 1.12); por conseqüência, se O rejeitamos, não somos membros da família celestial e não temos o direito de chamar Deus nosso Pai. João vê duas salvaguardas: o dom do Espírito Santo (20-27) e a simples e original mensagem do Evangelho (24). O dom do Espírito é chamado a unção que vem do Santo (20), isto é, que vem do Senhor Jesus Cristo (Jo 16.7). Os mais velhos manuscritos dizem "todos tendes conhecimento", ao invés de "vós conheceis todas as coisas". Uma das características dos gnóticos era pretenderem possuir um conhecimento secreto, privativo de um grupo seleto. João diz que no Cristianismo não há tal grupo seleto, porque Deus dá Seu Espírito Santo a todos os crentes, e todos eles têm conhecimento. Por conseguinte, embora haja um lugar próprio para os mestres cristãos (como o indica a própria epístola), é verdade que em última instância o crente é independente do homem e deve sua iluminação diretamente a Deus (27).

A outra salvaguarda é a simples mensagem do evangelho, o que desde o princípio ouvistes (24). Este evangelho não se presta a diletantismo intelectual ou espiritual; é uma simples mensagem que apela a uma vida disciplinada pela fé. Talvez porque é tão simples, homens tais quais os mestres de heresias são sempre tentados a fantasiar e torná-la diferente do que é. Donde João instar solenemente com os seus leitores para que permitam esta mensagem permanecer neles (24) ou, o que dá no mesmo, permanecerem eles em Cristo (28). Só esta permanência pode nos dar confiança perante Ele.

I Jo-2.29

V. FILHOS DE DEUS I Jo 2.29-3.3

A divisão de capítulos não é feliz aqui, visto separar a expressão de admiração em (I Jo 3.1) daquilo que lhe deu lugar, o ser nascido de Deus. Em I Jo 2.29 lembra-nos que ele é justo, e isto nos fornece um teste pelo qual podemos aferir os verdadeiros cristãos: "reconhecei que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele". Aqueles que mostram qualidades de caráter iguais às dEle provam que nasceram do céu. Dizendo isto, a maravilha e a graça desse fato arrebatam o apóstolo. "Vede!", diz ele, "vede que grande amor! Filhos de Deus! Haverá outra coisa que se lhe compare?".

Ele emprega a palavra grega tekna, a qual chama atenção para a própria natureza do filho antes que para direitos e privilégios; em outras palavras, chama atenção para nosso novo nascimento antes que para a adoção. Note-se a adição da frase "e de fato somos tais".

Não somente somos chamados filhos de Deus, mas de fato o somos. Tudo isto procede do amor admirável que Deus nos liberalizou, amor que vitaliza, e que gera nova vida, concedendo aos homens algo da própria natureza de Deus, e deles fazendo membros de Sua família. Tamanho amor, e a vida que engendra, é algo que o mundo não compreende nos que são objetos dele, assim como não compreendeu ao próprio Salvador (cfr. I Jo 1.10-11).

1Jo-3.2

Tudo isto é maravilhoso, mas do capítulo 3.2 vemos que ainda há mais. A interpretação exata deste versículo é difícil, mas a idéia geral é clara. A segunda parte do versículo pode ser compreendida de dois modos. Podemos ser havidos como semelhantes a Ele porque só os semelhantes a Ele podem vê-lO, ou talvez a idéia seja que a visão de Deus faz que os homens se Lhe assemelhem. Outrossim, não é bem claro se o versículo se refere ao Pai ou ao Filho, porém isto não importa muito porque quem vê o Filho também vê o Pai (Jo 12.45-14.9). Há, todavia uma coisa perfeitamente clara: é que grandes coisas estão reservadas para o crente, quando este O vir e for feito semelhante a Ele.

Esta expectativa é um estimulo presente para o cristão se desvencilhar de tudo quanto no coração e na vida não condiga com a perfeita pureza do Filho de Deus (3), de modo que assim como Ele não Se envergonha de chamar-nos Seus irmãos, nós não O envergonhemos nem sejamos envergonhados na Sua vinda (ver. I Jo 2.28).

I Jo-3.4

VI. FILHOS DE DEUS E FILHOS DO DIABO I Jo 3.4-10

João sabia que os mestres heréticos (veja-se a Introdução) reagiriam à sua doutrina de "purificação" (3) inculcando a teoria perniciosa da suficiência da sabedoria e sua superioridade sobre a mera vida correta. Daí prossegue a demonstrar que os que pecam são filhos, não de Deus, mas do diabo (8), e começa frisando que "pecado é anarquia" (4), sendo que a construção grega implica serem idênticas as duas coisas.

Anarquia aí não significa o estar sem lei, mas a afirmação da vontade individual contra a lei de Deus e em desafio a ela, a recusa de viver de acordo com os padrões revelados do que é correto e do que é errado.

I Jo-3.5

Vemos de pronto quão estranha é tal atitude ao filho de Deus, quando nos lembramos do propósito que Jesus Cristo teve ao vir ao mundo, a saber, tirar nossos pecados (5), destruir as obras do diabo (8). O pecado, em todas as suas formas, é a própria antítese do reino de Deus, havendo uma oposição inconciliável entre Cristo e todo o mal. E com isto em mente que devemos compreender as declarações fortíssimas doa vers. 6 e 9: todo aquele que permanece nele não peca; não pode pecar porque é nascido de Deus.

Tais declarações não devem ser atenuadas. Existe uma incompatibilidade entre o pecado e a profissão cristã, e nunca devemos ser complacentes com ele, mesmo que se trate de pecado “ocasional”. Ao mesmo tempo cumpre notar que a força do presente contínuo no grego, nestes versículos, dá ênfase a uma atitude habitual. Assim, o vers. 6 pode ser parafraseado -"Todo aquele que permanece continuamente nEle não vive pecando (por hábito); todo aquele que vive pecando não O viu, nem O conheceu".

E semelhantemente no vers. 9, "Todo aquele que é nascido de Deus não vive habitualmente no pecado, porque o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus" (cfr. ARA). João não está pensando em termos de atos individuais de pecado (que exigiria o aoristo no grego), mas refere hábitos, e está dizendo em termos fortes que a vida que a pessoa leva revela a fonte em que ela se abebera. Se é um renascido de cima, levará habitualmente a vida de uma pessoa nascida de novo, a despeito de deslizes. Se vive na prática constante do pecado, é do diabo, de sorte que erravam os falsos mestres em

dizer que o pecado não tinha importância.

Como uma vida reta foi a característica do Mestre, assim deve ela caracterizar o servo (7). Este versículo não quer dizer, naturalmente, que o crente é tão justo quanto o seu Senhor, assim como a declaração de ter o homem sido feito à imagem de Deus não quer dizer que ele seja igual a Cristo, de quem também se diz ser a imagem de Deus (II Co 4.4; Cl 1.15), como Agostinho frisou. E simplesmente uma maneira enfática de dizer que a vida serve de critério para julgamento; se somos de Cristo, seremos como Ele é.

I Jo-3.11

VII. O AMOR FRATERNAL COMO TESTE DECISIVO DE JUSTIÇA I Jo 3.11-24

As últimas palavras do vers. 10 sugerem uma conexão íntima entre a justiça e o amor fraternal; isto é reforçado na seção que segue, onde todo o dever cristão está resumido na obrigação do exercício do amor (11; cfr. Rm 13.8). Há uma percepção psicológica aguda no vers. 12, onde vemos que o motivo de Caim assassinar Abel foi o contraste entre a sua vida má e a vida exemplar do seu irmão.

A maldade sempre odeia a bondade, que a corrigem, e conseqüente mente os crentes não se devem surpreender quando virem que o mundo os odeia (13). Mas se é característico do mundo odiar, é igualmente característico do cristão amar e, com efeito, é por amarmos os irmãos (14) que sabemos que somos realmente de Cristo. O homem em que falte este amor ainda está na morte do pecado, sendo de fato um homicida, porque o essencial para alguém ser assassino, pelo menos do ponto de vista divino, é a atitude íntima da qual os atos externos são apenas a expressão (15; cfr. Mt 5.21 e segs.).

No vers. 16 devemos omitir de Deus, que só ocorre em tardios; o sentido do versículo é bem exposto pela ARA: "Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós". Porém quando chegamos a alcançar algo da grandeza do amor de Deus, alcançamos também que ele nos impõe obrigações e devemos estar prontos a dar nossa vida pelos outros. João, entretanto, é prático. Morrer pelos demais pode realmente nunca ser exigido, contudo haverá muitas vezes necessidade de pronto auxílio, ocasiões estas em que não as palavras, mas as obras (18) revelam a existência do amor fraternal.

I Jo-3.19

Nos versículos seguintes há tranqüilização para consciências sensíveis. O grego dos vers. 19 e 20 é difícil, tendo sido sugeridas várias traduções, porém a mais provável interpretação parece ser a seguinte. Nisto refere o que foi dito antes: sabemos que somos da verdade, porque o amor está sendo manifesto em nossa vida. Todavia se temos dúvidas sobre isto, se o nosso coração nos acusa (20), então seremos tranqüilizados com a reflexão de que Deus é o Juiz, não nosso coração, e que Ele tem perfeito conhecimento de tudo.

Os homens, em humildade, podem ver somente suas deficiências e portanto passam a experimentar dúvidas. Porém Deus, que dá o amor, leva em conta uma porção de atos de fraternidade, aos quais os homens não ousam dar valor (cfr. Mt 25.37-40). Quando continua dizendo se o coração não nos acusar (21), João não está pensando naqueles que pretendem ser impecáveis, ou que são insensíveis ao pecado, mas está referindo "a ação de uma fé viva que conserva um senso real de comunhão com Deus" (Westcott). Se temos tal senso de paz, então temos confiança para com Deus.

A palavra grega parrhesia, traduzida confiança ("ousadia"), deriva de duas palavras que significam "todo o falar", e assim denota primeiro uma liberdade, fluência de palavras, e depois a atitude de ousadia que dá lugar a esse falar.

I Jo-3.22

Essa palavra, que lembra ousadia no falar, conduz naturalmente à idéia de oração, e então aprendemos que a guarda dos mandamentos é indispensável para que as orações sejam respondidas (22). Isto não quer dizer que Deus nunca responde a oração de um pecador, porque é claro que Ele às vezes faz isso; porém estamos outra vez diante do tempo presente contínuo. A medida que continuamos a orar, Deus continua a responder na proporção em que guardarmos o mandamento, sendo este imediatamente definido como crer no nome de Jesus Cristo (23). Para que as orações sejam continuamente respondidas, precisamos exercer a fé, verdade esta em que a Escritura insiste muitas vezes. O capítulo finaliza com outro fundamento de segurança, a saber, o Espírito Santo que nos foi dado (24). Nossa segurança depende do que Deus

tem feito por nós, e não dos nossos pequeninos esforços.

I Jo-4.1

VIII. O ESPÍRITO DA VERDADE E O ESPÍRITO DO ERRO

I Jo 4.1-6

A referência ao Espírito, no verso precedente, leva-nos à importante questão de como distinguir entre a verdade e o erro quando havia muitos que pretendiam ser inspirados. O problema não era novo, porque lemos de falsos profetas no Velho Testamento, e além disso Paulo achou necessário dar uma regra para se conhecer quando alguém falava pelo "Espírito de Deus" (I Co 12.3). João agora adverte a seus leitores que muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora (1); por aí vemos que o problema se tornara urgente para eles. O fato de se dizer que saíram parece implicar que se tratava daqueles mencionados em (I Jo 2.19), que se haviam afastado, e o tempo perfeito do verbo grego indica que a atividade deles era contínua.

Evidentemente haviam deixado a igreja e pretendiam que seus ensinos heréticos fossem reconhecidos como inspirados, de modo que os crentes estavam na obrigação de não aceitar, sem questionar, tudo quanto lhes dissessem homens que mantinham a posição de mestres e, sim, cumpria-lhes provar os espíritos. A pedra de toque, como vemos dos vers. 2 e 3, é a atitude que mantêm para com Jesus Cristo. Os falsos mestres negavam uma real encarnação (ver a Introdução), mas todo aquele que é inspirado por Deus confessa que Jesus Cristo veio em carne (2).

A construção grega dá ênfase à Pessoa, antes que à proposição; isto é, o que ele quer dar a entender é a confissão de Jesus Cristo e Este vindo em carne, antes que a confissão de que Ele veio em carne. Assim é que, inversamente, o falso mestre é aquele que "não confessa Jesus Cristo" (3). Tal é a nota distintiva do anticristo (ver I Jo 2.18).

I Jo-4.5

Os tais empolgam o mundo (5), sendo que esta palavra não tem aí um sentido neutro, mas trata-se do mundo oposto às coisas de Deus (cfr. I Jo 2.15). Os falsos profetas pertencem de fato ao mundo, de sorte que não é de admirar sejam aceitos por ele, ou que os verdadeiros mestres não sejam aceitos (6). Este fato fornece a João outro critério de discernimento entre a verdade e o erro. Note-se a expressão vós sois de Deus (4-6) e a certeza de vitória em ambos estes versículos. A falsidade pode ter força e ser pretensiosa, mas a verdade acaba por prevalecer.

I Jo-4.7

IX. O AMOR DE DEUS I Jo 4.7-21

Uma vez mais o escritor volta ao pensamento de que o cristão deve manifestar amor, e reforça-o com outra de suas declarações duplas, que lhe são características apresentando a verdade primeiro em sua forma positiva, todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus (7) e depois em sua forma negativa, aquele que não ama não conhece a Deus (8). Não pode haver dúvida de que o amor é da própria essência do caráter cristão, visto como Deus é amor (8). Eis uma declaração profunda (repetida no vers. 16) da natureza essencial de Deus, porque significa muito mais do que a frase "Deus ama", embora que esta seja verdadeira e importante.

Implica que a natureza essencial de Deus é amor, e que, por conseguinte, tudo quanto Ele faz é feito em amor. Este amor se manifestou (9), sendo que o aoristo grego fixa a atenção nessa manifestação singular e decisiva, antes que na evidência contínua de Seu cuidado por Seus filhos. João está procurando esclarecer que o amor de Deus é algo que só se revelou em sua plenitude na cruz, e conseqüentemente repele com ênfase a idéia de o nosso mesquinho amor a Deus dar-nos o verdadeiro retrato do amor (10). Verdadeiro amor é somente aquele que Deus tem por nós, isto é, em enviar Seu Filho em propiciação por nossos pecados.

Note-se o paradoxo retumbante deste versículo: Deus ama e ao mesmo tempo se ira, e Seu amor provê a propiciação que afasta de nós a Sua ira. "Longe de achar a menor oposição entre o amor e a propiciação, o apóstolo não pode dar a ninguém uma idéia do amor senão apontando para a referida propiciação" (James Denney).

I Jo-4.11

Mas, se Deus é amor, Seus filhos devem ser semelhantes a Ele, e João tira a conclusão prática de que devem mostrar não amor a Deus, como se poderia supor, mas amor fraternal (11), o qual é a evidência da presença de Deus em nós, e do fato de Seu amor ser aperfeiçoado em nós, isto é, atingir seu alvo em nós (12; cfr. I Jo 2.5). A permanência íntima do Espírito em nós está estreitamento relacionada com isto (13), porque, como Paulo lembra, o amor é o primeiro fruto do Espírito (Gl 5.22). A declaração de que ninguém jamais viu a Deus (12): João cita-a do seu Evangelho (Jo 1.18). O pensamento volta à consideração e é desenvolvido no vers. 20, adiante.

I Jo-4.14

No vers. 14 os leitores são lembrados da experiência pessoal e do testemunho dos apóstolos, sendo o pronome nós enfático no grego. Mas daí ele prossegue inevitavelmente para o aquele que do vers. 15, visto como todos os crentes conhecem a bendita experiência da habitação de Deus no seu íntimo. Deus é amor, e permanecer no amor é permanecer em Deus. Isto, naturalmente, deve ser compreendido no seu próprio contexto, porque João longe está de endossar a noção sentimental de que qualquer pessoa que tem afeição a outra, só por isso permanece em Deus.

Pelo contrário, ele se ocupa do amor que brota de uma apreciação do amor revelado no Calvário. É este o amor aperfeiçoado em nós (17). Não se trata do nosso amor, mas do amor de Deus. Este é o amor que opera em nós e produz amor por outros. O resultado disto é aguardarmos sem temor o juízo vindouro (18). Aqui a parrhesia é vista de um ângulo diferente daquele do capítulo 3 (veja-se nota em torno de (I Jo 3.21). Lá ela procedeu da obediência; aqui é da aceitação toda cordial do amor de Deus, que produz em nós qualidades semelhantes às de Cristo. O perfeito (gr. teleia) amor, amor que atingiu seu fim (telos), lança fora o medo. Encara o mundo como Deus encara.

Assim, nós amamos porque ele nos amou primeiro (19). A iniciativa do amor sempre é de Deus. Isto leva João, nos dois últimos versículos, de volta ao pensamento de que o cristão é uma pessoa que manifesta amor por outros. Se diz amar a Deus, porém odeia ao próximo, é mentiroso (20). Amor a Deus e ódio ao homem são duas coisas incompatíveis.

I Jo-5.1

X. AMOR, FÉ E VITÓRIA I Jo 5.1-5

Esta breve parágrafo está cheio de pensamentos sobre, amor, fé e obediência, e oferece-nos um interessante comentário em torno do conceito paulino: "a fé atua pelo amor" ( Gl 5.6). Note-se outra vez a insistência sobre a encarnação, Jesus é o Cristo (1); só a pessoa cuja fé se alicerça nesta certeza se pode dizer nascida de Deus. Temos aqui, outrossim, uma reiteração da íntima conexão que existe entre o amor a Deus e o amor aos irmãos. Mas, enquanto, antes, o amor aos irmãos foi considerado como evidência de que existe amor a Deus aqui o fato de amarmos a Deus é que mostra ser uma realidade o nosso amor pelos irmãos (2). O amor a Deus é definido como observância dos Seus mandamentos, porque verdadeiro amor a Ele sempre se acompanha de obediência.

Quando se diz que esses mandamentos não são penosos (3), a idéia não é que o serviço de Deus seja coisa fácil, porém que Seus mandamentos não são um fardo fatigante. O padrão que Ele apresenta aos Seus filhos é o mais elevado, porém Ele lhes dá Seu Espírito Santo, transforma-os por Seu amor, de modo que a guarda dos mandamentos, embora ainda difícil, não é tarefa opressiva. O mundo e suas atrações tentam continuamente os filhos de Deus, mas todo o que é nascido de Deus vence o mundo (4). Esta declaração é feita do modo mais abstrato, "tudo o que", ao invés de "todo aquele que", e isto dá ênfase ao poder que procede de Deus, e não ao crente.

Contudo este poder opera vitoriosamente apenas nos crentes, por isso segue-se imediatamente: esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé; o que vem repetido de forma diferente no vers. 5. Não quer dizer seja a fé um mérito humano, que vença por virtude própria. A fé há de ser necessariamente fé em Deus e, como Dodd observa, "Significa entregar-nos ao amor de Deus expresso em tudo quanto Jesus Cristo foi e fez".

I Jo-5.6

XI. TESTEMUNHAS DA DIVINDADE DE JESUS CRISTO I Jo 5.6-12

A maior parte do vers. 7, como constava no antigo texto de Almeida, fica entre parênteses na ARA, porque não foi escrito por João. Apareceu primeiro numa versão latina trezentos anos depois da morte desse apóstolo, e não figurava em nenhum manuscrito grego se não de mil anos depois. O que nele se declara é perfeitamente verdadeiro, porém não demanda atenção em qualquer esforço por se compreender o pensamento do apóstolo. O vencedor na guerra contra o mundo da falsidade, hostilidade e impiedade já se acabou de dizer que é a pessoa que crê ser Jesus o Filho de Deus.

Segue-se uma declaração concisa da completa identificação da divindade e da humanidade em Jesus de Nazaré. Possivelmente são visados aí os que ensinavam que o Cristo divino viera no Espírito sobre Jesus por ocasião do Seu batismo, e que se afastou dEle antes da crucificação. Os tais admitiriam uma vinda por meio de água, e não por meio de sangue. João entretanto não entende que o presenciar uma vida ideal traga vitória. Para isto foi essencial uma morte expiatória, donde acrescentar com ênfase não somente com água, mas com a água e com o sangue (6).

Cita-se então o Espírito como testemunha; a construção grega faz compreender "Ele continuamente dá testemunho", e não leva a entender um acontecimento como, por exemplo, o Pentecostes. Confira-se a sentença o Espírito é a verdade com João Jo 16.13.

I Jo-5.8

O testemunho tríplice, mencionado no vers. 8, tem dado lugar a muita discussão, mas não parece haver razão para dar à água e ao sangue aqui um sentido diferente daquele da seção que precede imediatamente. O pensamento, pois, é que o envio do Espírito e os fatos históricos do batismo e crucifixão do Senhor constituem um testemunho tríplice, da Pessoa de Cristo, que impressiona por sua unidade. Outros vêem referência aos dois sacramentos, mas, embora seja isto possível, deve-se todavia notar que a Ceia do Senhor em parte alguma é referida como "o sangue", e este, considerado com o vers. 6, indica que a interpretação dada acima é preferível. Uma vez que os três procedem de Deus, pode-se dizer que o testemunho é testemunho de Deus (9), o qual deve ser preferido ao que os homens dizem. Contudo os que crêem no Filho têm o testemunho em si (10); depositam sua confiança no Filho, e de sua própria experiência têm prova de Sua divindade.

Contrariamente, os que não dão crédito a Deus, fazem-nO mentiroso, porque por essa atitude em face da evidência fornecida pelos atos de Deus na história e pela experiência da Igreja, rejeitam "o testemunho que Deus dá acerca do seu Filho" (10).

I Jo-5.11

No vers. 11 o testemunho estabelece a continuidade do pensamento. O escritor, portanto, leva esta seção a um final impressionante, resumindo o testemunho, dando-lhe caracteristicamente um aspecto positivo e outro negativo. Vida eterna é dom de Deus ao homem, e está intimamente associada ao Filho, estando realmente no seu Filho (11). Por conseqüência, ter o Filho é ter a vida, ao passo que não ter o Filho quer dizer inevitavelmente não ter a vida (12).

I Jo-5.13

XII. CONCLUSÃO I Jo 5.13-21

O propósito da epístola vem agora resumido numa simples sentença (13), de onde vemos a importância da certeza. Foi escrita "a fim de saberdes que tendes a vida eterna", aos que crêem "em o nome do Filho de Deus". Aproximando-se de Deus em oração, tais crentes têm uma liberdade de falar que é bem expressa na palavra grega parrhesia (veja-se I Jo 3.21), uma confiança (14), uma certeza de que serão ouvidos. Deus ouve, e nós sabemos, diz João, que obtemos (note-se o tempo presente) os pedidos que lhe temos feito (15). Como outras grandes promessas de resposta à oração, esta se acompanha de uma condição: se pedirmos alguma coisa segundo a sua

vontade (14).

Em (Mc 11.24) insiste-se na oração da fé; em Jo 14.14 ela deve ser em o nome de Jesus; em Jo 15.7 fala-se da permanência em Cristo como a condição; ao passo que em I Jo 3.22 a obediência é o requisito preliminar. Vários são os modos de expressá-lo, mas sempre o pensamento é que a oração não é uma tentativa de persuadir o Senhor Deus a fazer a nossa vontade; antes é uma atividade em que filhos confiantes se acercam de seu Pai celeste num esforço sincero de se ajustarem à vontade dEle. A oração é um meio de promover os propósitos justos de Deus, e não de satisfazer nossos desejos egoísticos.

Tendo deixado assente que a oração deve estar de acordo com a vontade de Deus, e que, sob esta condição, é ouvida e respondida, o escritor prossegue em mostrar como opera este princípio. Deve-se orar por um irmão que peque, porém que não seja esse pecado para a morte, distinto daquele que o é. Nesta última expressão devemos omitir o artigo antes de pecado, porque parece denotar um estado, antes que um ato específico.

Ao mesmo tempo, devemos ter em mente que João não diz que pecado é esse. É estranho, pois, que em face desta passagem muitos não se mostrem interessados no dever que ela inculca, isto é, o de orar pelo irmão que erra, mas se mostrem curiosos em saber que pecado é esse para morte, como se, caso o soubéssemos e evitássemos os outros pecados não interessassem muito. Parecendo corrigir essa atitude, João prossegue, Toda injustiça é pecado (17). De fato, justamente porque toda injustiça deve ser evitada é que ele está insistindo na necessidade de orar contra ela. Não diz que pecado é esse para morte, mas muito provavelmente ele tem em mente a advertência de nosso Senhor acerca da blasfêmia contra o Espírito Santo (veja-se Lc 12.10).

O Novo Testamento ensina claramente que é possível avançar tanto na rebelião contra Deus e na rejeição de Seu Filho que a capacidade de arrependimento fique irrevogavelmente perdida (cfr. Hb 10.26-31; Hb 12.17).

I Jo-5.18. A epístola termina com um tríplice sabemos, chamando atenção para três gloriosas certezas da alma crente. No vers. 18 temos outro lembrete incisivo de que todo aquele que todo nascido de Deus não vive em pecado (ver nota sobre I Jo 3.6-9), e isto é frisado na segunda metade do versículo, "aquele que foi gerado de Deus o guarda, e o maligno não lhe toca", aceitando-se a redação da ARA, porque a evidência dos manuscritos e da construção grega aí empregada parece indicar que João estava pensando no modo como Jesus Cristo cuida dos Seus e os protege dos assaltos do demônio.

O segundo membro da trilogia deve ser compreendido à luz do que acima ficou exposto. Há uma brecha ou separação entre o mundo e o povo de Deus, não se devendo fazer confusão entre os dois, como os mestres heréticos costumavam, quando diziam que os cristãos podiam viver segundo os padrões do mundo. Sabemos que somos de Deus (19), e isto significa a ruptura mais brusca que imaginar se possa com tudo quanto é mundano, porque "o mundo inteiro jaz no maligno" (ARA). I Jo-5.20.

O terceiro sabemos introduz os fundamentos de nossa certeza, a saber, o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento (20). Outra vez notamos ênfase no fato da encarnação, tão característica desta epístola. Assim é que "reconhecemos o verdadeiro, e estamos no verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo". A palavra aí traduzida "verdadeiro" (alethinos) não tem o sentido comum desse termo (alethes), mas significa "genuíno", "fidedigno", cujo antônimo não é "falso", senão "imaginário", "irreal".

Emprega-se de novo a palavra na expressão Este é o verdadeiro Deus, que nos dá a idéia de Deus como genuína ou propriamente existente, real, em contraste com os ídolos mencionados no verso seguinte. É possível compreender que se trata de Jesus Cristo, que acabou de ser referido, mas provavelmente significa, "Este Ser que temos descrito, que é amor, que enviou Seu Filho a ser a propiciação pelos nossos pecados, que nos dá o dom da vida eterna" este Deus, e somente Ele, é real.

E assim chegamos à palavra final, Filhinhos, guardai-vos dos ídolos. Não há razão de pensar que os leitores de João corressem o perigo de se curvar às figuras de madeira e pedra; devemos entender por ídolos aí aquelas coisas que os homens colocam no lugar do verdadeiro Deus. Os falsos mestres daqueles dias apresentavam um conceito deturpado e irreal de Deus, o que com propriedade se podia qualificar de "ídolo". Esta exortação é sempre atual, porque há uma tendência constante para substituir a revelação do Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo pelos conceitos humanos acerca da divindade. No século vinte, assim como foi no primeiro, os filhos de Deus devem guardar-se de todo ídolo.


Bibliografia

Novo Comentario Biblico - Editado em português pelo Rev. Dr. Russell P. Shedd.


Alan

Nenhum comentário:

Postar um comentário

- Deixe o seu comentário;
- Assim que puder responderei;
- Faça desse espaço um lugar de crescimento espiritual;
- Grato por sua visita;
- Deus te abençoe.